domingo, 7 de agosto de 2011

A Morsa e o Carpinteiro ~ Lewis Carroll



O Sol rebrilhava feliz sobre o mar,
Brilhava em pleno poder;
Feroz procurava as ondas tornar
Brilhantes também e tranquilas correr -
E isso era estranho, porém, ao se ver
Que era meio da noite!

A Lua brilhava também, amuada,
Porque achava que o Sol
Não tinha motivos para fazer nada
Depois do crepúsculo, antes do arrebol -
"Mas que grosseria!" - dizia - " um farol
Atrapalhar meu plantão!"
O Mar era úmido e todo molhado
As areias eram secas, porém,
Não se via uma núvem no céu estrelado
Porque não saíram as núvens também -
E as aves não piam, as aves não vêem
Que o Sol retornou!

A Morsa marchava ao longo da praia,
Ao lado do Carpinteiro;
Choravam ao ver quão extensa era a raia
De areias aos montes, num grande terreiro -
"Vão ter de chamar o carroção do pedreiro
E fazer um aterro!"

"Se sete criadas com sete esfregões
Varressem metade de um ano" -
Indagou a Morsa - "estes areiões
Poderiam ser limpos pelo esforço humano?" -
Falou o Carpinteiro "Descreio do plano" -
Soltando uma lágrima triste!

"Vinde, Ostras queridas, conosco passear!"
-A Morsa gentil convidou.
"Um passeio agradável, à beira do mar,
Na praia salgada que o vento agitou." -
"Subam quatro somente" - depois ajuntou -
"E todos daremos as mãos!"

A Ostra mais velha apenas olhou,
Sem nem ao menos falar;
A Ostra mais velha seus olhos piscou,
Meneando a cabeça, como a revelar -
Que o leito das ostras não ia deixar
No fundo do Oceano!

Mas quatro das Ostras mais jovem subiram,
Ansiosas pelo passeio:
Lavaram o rosto, os cascos vestiram,
De sapatos lustrados, sem terem receio -
De mostrar por este ou qualquer outro meio
Que nem tinham pés!

E logo quatro das Ostras nadaram
E mais outras quatros surgiram;
Em um bando radiante a areia alcançaram
E outras e outras a praia atingiram -
Saltaram as ondas, à margem subiram,
Dançando em folia!

A Morsa avançou, junto ao Carpinteiro:
Quilômetros e meio marcharam
Juntaram um monte de pedras primeiro
E uma espécie de mesa depois prepararam -
Ao redor as Ostrinhas também se assentaram
Esperando uma história!

A Morsa exclamou: "A hora é chegada!
Temos mil coisas para conversar:
Sapatos, veleiros e cera encarnada
E lacre e repolhos e Reis proclamar! -
Porque esta noite fervente está o mar
E os porcos criaram asas!"

"Esperem um momento!" - As Ostras gritaram -
"Depois iniciamos a conversação:
Estamos sem fôlego, nossos pés se cansaram,
Nós somos gordinhas - tenham compaixão!" -
Falou o Carpinteiro: "Esperamos, pois não?!"
E as Ostras agradeceram!

"Precisamos agora de uma bisnaga de pão" -
Disse a Morsa, contente.
"Pimenta e vinagre na palma da mão
E um pouco de sal, que se espalha frequente -
E agora, se está pronta a assembléia presente,
Começamos a comer!"

As Ostras gritaram: " Vão nos devorar?
Não façam! Piedade!
Nós somos amigas! Não podem matar
Depois da conversa e passeio: é maldade! -
E a Morsa responde, com sinceridade:
"Gostaram da vista, não foi?"

"A sua visita nos deu muito prazer,
Foi uma delícia este dia!"
O Carpinteiro contentou-se em dizer:
"Por mim está ótimo -outro assim me servia -
Por favor, me corte mais uma fatia:
Eu quero mais pão!"

A Morsa falou: " Estou envergonhada,
Foi um truque cruel!
Trazê-las aqui, nesta caminhada,
Cmo se fossem pelotão de quartel" -
E o Carpinteiro limpou num papel
As mãos sujas de manteiga!

"Chorei por vocês" - a Morsa falou - "Com profunda simpatia".
Aos soluços, fungando, ela devorou
As Ostras maiores que via! -
E, nos intervalos, seu lenço trazia
E secava suas lágrimas!

" Ostrinhas queridas" - falou o Carpinteiro -
"Pra mim este dia foi muito feliz!
E, agora, voltemos pra casa ligeiro!..."
Mas nenhuma resposta se escuta ou se diz -
Aquelas que o bom Carpinteiro não quis,
Foram todas comidas pela Morsa primeiro!...

Alice no País do Espelho - Lewis Carrol

2 comentários:

  1. s2 aaah eu já li esse livro 3 vezes *-*

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  2. sim, é muuuuuuito bom! *-* eu li uma vez só, mas o que eu tenho aqui são os dois juntos "Alice no pais das maravilhas e no país do espelho" :3'

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